26.11.05

God would have mercy...


Eu deveria escrever sobre a violência contra as mulheres, mas eu queria muito mais ir à raiz do problema, do que fazer um texto de protesto. Por isso resolvi falar sobre os homens. Afinal, são eles os agressores. É neles que está a fúria destrutiva, a raiva, a brutalidade.
Há semanas que venho matutando o assunto, mas antes que eu continue, preciso dizer que não sou uma mulher magoada, oprimida, rejeitada ou frígida, como são tachadas todas as mulheres que apontam o dedo na direção dos homens. Sou, ao contrário, uma entre tantas que admira a virilidade masculina e, sendo honesta comigo mesma, só de falar a palavra virilidade sinto um frenesi entre as pernas. Assim, sou mais uma seduzida pela força e o poder masculino. Entretanto, acredito que, justamente, a admiração excessiva nessa força é que é o “X” da questão. A glorificação do poder masculino está presente em toda a história da humanidade, profundamente enraizada em suas crenças. Mas, como tudo no mundo, existe duas faces dessa mesma energia. Horrorizamos-nos quando ela se manifesta em guerras, violência, torturas e a admiramos quando ela se manifesta nos esporte ou na luta pela justiça.
Acho que estamos perdendo o equilíbrio saudável que permeia tudo o que é bom e, portanto, levanto duas questões, que não são nenhuma novidade:
1) Será que o mundo não seria melhor se fosse edificado a partir do poder feminino, que é a essência da alma das mulheres?
2) Se não, já não seria a hora de pararmos com essa idolatria masculina do poder?
Todo excesso faz mal. Muitas vezes, nós mulheres, somos lembradas que, somos nós (mães) que educamos nossos filhos homens. Isso é verdade, mas os educamos seguindo um rígido padrão já pré-estabelecido. Ninguém quer ceifar a natural virilidade dos guris que bradam as espadas pela causa nobre, mas ninguém agüenta mais o estereotipo do machão. O Rambo é tão coisa do passado que me espanta que as pessoas tenham, ainda, tão incorporada essa coisa do herói americano. Esse cara não existe! Todo mundo sabe disso, mas, por exemplo, fiquei chocada quando na passagem do Katrina sobre New Orleans, aquela gente toda, e o mundo também, ficou esperando o fantástico show de eficiência que a gente tanto vê nos filmes. Nada de show, nada do cara que sabe exatamente o que fazer. Isso, para mim, é o retrato fiel do barco furado, do delírio coletivo no qual a humanidade mergulhou sem se dar conta das conseqüências reais dessa fantasia desenfreada.
Quando existe violência é o Rambo bestial que parte para ignorância, mas essa fera só está à solta dentro dos nossos homens porque a humanidade, há milênios, acredita que esse é o único caminho possível. É claro que existem exemplos maravilhosos de homens sábios, mas esses exemplos estão perdendo de longe na balança que conta a nossa história.
Esse post faz parte da blogagem coletiva contra a violência às mulheres.
A lista dos blogs participantes está em http://www.sindromedeestocolmo.com/

12 comentários:

Biajoni disse...

puxa, gostei muito!
...
veja se vc participa de outras blogagens coletivas!
...
:>*

Laura disse...

Que texto lúcido! vou divulgar, poucos leram ,será? sabe que eu vinha pensando em escrever algo assim hoje, o por quê da violência nos homens, acho que um dia escrevo. Vc acertou na mosca. parabéns e prazer em te conhecer, voltarei. abs, laura

Roberson disse...

Ao fazer o bem e mal, exercemos o nosso poder sobre aqueles a quem se é forçado a fazê-lo sentir; porque o sofrimento é um meio muito mais sensível, para esse fim, do que o prazer: o sofrimento procura sempre a sua causa enquanto o prazer mostra inclinação para se bastar a si próprio e a não olhar para trás.
Friedrich Nietzsche

Talvez seja por aí, minha cara. É muito mais fácil manifestar o poder sobre o outro impondo sofrimento em vez de prazer. E nas relações homem-mulher onde ainda existe a figura do homem-provedor, é raro encontrar alguém que renuncie ao poder. A sede de poder - raros são os que não a tenham num grau ou noutro experimentado - é natural do homem. Difícil, isso sim, renunciar a ela. Some a isso uma tendência à violência...
Talvez esse seja o verdadeiro segredo das boas relações humanas: uma misturinha de entrega e renúncia.

Pat disse...

Roberson,
Sublime como sempre.
abraço
pat

Vanessa disse...

Pat, concordo com uma série de questoes que voce tocou aqui, especialmente nas que dizem respeito a arquétipos. Quero deixar um comentário mais elaborado, até porque estou com uma pequena crise familiar (nada sério, mas que envolve criancas e tabefes) que exemplifica bem o que estamos tratando. Daqui a pouco eu volto. Guentaí. Beijoes,
Vanessa

Issana disse...

Achei seu texto original e interessante. Também acho que essa questáo de "mentalidade-Salvador-da-Pátria" está na raiz de muita coisa ruim, inclusive no que diz respeito à violência contra as mulheres...
(Aproveitei e li outros textos seus. Adorei e vou sempre voltar por aqui!)
Beijos

paulokunha disse...

fantástico o seu texto!
posso usar para um post?
abraços
paulokunha

k. disse...

comecei à fazer um comentário do seu post mas foi ficando tão grande e levando à tantas outras reflexões, que eu resolvi transformar ele num post. eNtão ele virou uma reflexão influenciada pel seu post.Está aqui
http://montrealswinds.blogspot.com/2005/11/resposta-uma-parte-da-reflexo-da-pat.html

Pat disse...

Paulo,
Fique a vontade, todo ou parte dele.
abraço
pat

Pat disse...

K.S.
Fico muito contente. Dei uma olhada lá e vou voltar para ler com calma de noite.
abraço
pat

Leila disse...

Pat, super original a sua abordagem, adorei. Abração,

Pat disse...

Laura,
Fiz uma visita ao seu blog. Gostei muito. Vejo que você também gosta de tentar entender a origem dos comportamentos humanos.
abraço
pat