1.10.13

“Não é possível satisfazer esse sentido de esbanjamento que se deu à vida” Mujica.

Inacreditável as necessidades do Ego. Parece-nos tão natural que nossas vidas sejam regidas pelo mercado, pela alta do dólar, pelo resgates de bancos aqui e acolá, pelo custo hora trabalhada, pelo plano de saúde particular, pela ideia de produzir mais e consumir mais, mais e melhor, hoje e amanhã, novas marcas, novas tecnologias, informação. E, onde está mesmo o valor da vida? No tempo que nos vendem como precioso para que continuamente o joguemos fora, seduzidos pela produção industrial das artes, do lazer, da cultura, gastronomia com prazo de validade vencido. E, nesse mundo globalizado, intenso, curioso e ciumento nos roubam cada minuto numa rotina insana de afazeres muitas vezes dispensáveis e vazios. Os excessos são tantos que os Bancos já apelam para comerciais que parecem anúncios religiosos de felicidade eterna. E, diante dessa urgência toda a intolerância permeia cada dia mais as relações humanas. Não há o bastante para todos e, se antigamente o bastante era apenas uma casinha branca para chamar de sua, comida e educação para os filhos, hoje é a última versão de celular, computador, carros, decoração, roupas, viagens... Até sexo deixou de ser algo gostoso para se fazer debaixo dos lençóis para ser um universo complexo de consumo de como, quando, quanto, onde, com quem, e muitas vezes impossível de acontecer naturalmente sem a ajuda de analistas, medicamentos, consultores de moda, cartão de crédito.

Pare o mundo que eu quero descer! Quero parar e deixar o tempo rolar pelos lados até ser capaz de reconhecer que não estou presa ao mundo, nem sou refém de sua ditadura do consumo de coisa alguma. Tenho que recuperar o tempo da vida simples onde o próprio tempo corria moroso, sem vergonha de ser feliz. Somos a geração que tem acesso a muito e, é claro, que isso tem um lado bom. Todo conhecimento está verdadeiramente ao alcance da sua mão, e conhecimento é tudo o que se precisa para questionar os valores que nos tem sido impostos. Não é preciso descartar todo o progresso, idiota é quem pensa assim. Mas, algo está faltando e é preciso olhar para trás e procurar o que de precioso deixamos pelo caminho.


15.8.13

LINCOLN (o filme), O CONGRESSO BRASILEIRO, E A DEMOCRACIA



Ontem assisti Lincoln. O filme é bom, mas eu esperava mais. O filme narra a grande luta de Lincoln para a aprovação a Emenda Constitucional que extinguiria a escravidão, e só. O que também [tá certo] não é pouco, dada a magnitude e importância de tal Emenda. Mas, o que me chamou a atenção, me escandalizou de fato, foi a negociata no congresso para conseguir os votos. A oferta de cargos para parlamentares não reeleitos era a permuta autorizada. Fiquei tão chocada com isso! A MAIOR DEMOCRACIA DO MUNDO FOI CONSTRUÍDA COM BARGANHA!  Claro, porque não?  Como você pode esperar algo diferente? Ainda mais vivendo no Brasil, onde essa negociata é escandalosamente presente? O que torna meu desgosto ainda maior, porque estou falando do Brasil de 2013, enquanto analiso os Estados Unidos de 1865. Será que somos tão atrasados assim?
Embora não estivesse disposto a oferecer subornos em dinheiro, Lincoln autorizou que agentes contatassem os congressistas democratas com ofertas de empregos federais em troca de voto a favor da 13ª Emenda. Que um Estados Unidos da época precisasse dessa revoltante artimanha para aprovar uma ementa tão importante só serve para mostrar que foi quase um milagre o resultado da votação. Olhando com olhos de hoje nos parece insano que o mínimo do bom senso não permeasse a decisão a favor do homem livre.
Mais tarde, me queixei com o Richard da triste constatação de que POLÍTICA se faça dessa maneira. Que cada parlamentar sempre vota segundo seus próprios interesses, NUNCA a serviço da nação. Foi quando ele me disse uma frase memorável: “Claro que é assim, senão qualquer um serviria.”  Sim, exclamei, QUALQUER UM  serviria! Se a humanidade fosse capaz de votar pelo bem comum, com base na consciência ética, na justiça... qualquer um serviria. 
Há algo de muito obscuro nessa constatação. Parece que há um enorme lapso de tempo e espaço entre o mundo político e o resto do mundo – e não falo só do Brasil. A humanidade já conquistou muitas coisas. Já é natural para nós que a invasão de outro país seja inadmissível, que escravidão seja aviltante, que guerras por fins religiosos sejam insanas, que casamento inter-racial deva ser uma escolha de amor, que todos devam ter igualdade de direitos, etc. Então, nos parece intrínseco que o representante de uma nação deva votar pensando no BEM geral, acima de tudo. E a triste constatação é que isso está longe de ser verdade. Que o que chamamos democracia não passa de uma luta de interesses mesquinha e de compensação imediata. Ainda votamos as leis – e leis tão importantes como assegurar o bem estar de todos – pensando nos interesses adjacentes, muitas vezes pessoais e de curto prazo. Que nossos políticos sejam assim, é compreensível, não é mesmo? Não nos causa estranheza. O que me chamou a atenção é que nos escandalizamos quando descobrimos que eles não votam segundo a consciência, retidão, seriedade, dignidade, honradez, probidade... Todos sinônimos da nossa mais alta expectativa, que é justamente o que eles nos vendem em época de eleição, e o que, ingenuamente, permeia a decisão na hora do NOSSO voto.
Eles sabem o que se espera deles, e nós sabemos que eles não estão à altura dessa responsabilidade. Mas “eles” somos nós, não são? Humanos da nossa era? Gente como a gente? Essa dicotomia entre o perceptível nível da consciência humana atual (ideal?) e a realidade prática é enorme e estranha.


CURA GAY



Hoje eu me deparei com uma dor excruciante. Uma dor imensa, que me dilacerou a alma e me revelou a face do monstro. Do tirano que somos todos nós, incapazes de aceitar cada um como é. Ainda estou atormentada, por isso escrevo esse texto.
Um amigo está sofrendo enorme dilema de ter que abrir mão do companheiro amado por causa do constrangimento que essa relação traz à sua família. Eu vi nos olhos dele uma dor incalculável, a dor de quem tem que escolher qual pessoa querida ele vai ferir, e isso inclui a si mesmo. Eu pude sentir o rasgo no seu peito e sua agonia me atingiu de tal forma que me jogou contra a parede, chacoalhou minha mente e me mostrou o que verdadeiramente importa, como nunca tinha visto antes.
Não interessa qualquer ponto de vista sobre a questão gay, mas o direito BÁSICO de cada um ser o que é. Compreendi, com horror, que não há uma questão gay a ser aceita, isso nem devia estar sendo cogitado. Cada um de nós que, “humanamente”, procura fazer um esforço de tolerância e aceitação, (porque, sejamos francos, a gente se esforça bastante) iremos, mais cedo ou mais tarde, descobrir que estamos analisando isso do ângulo errado. É claro que nosso preconceito é fruto de um contexto cultural, e incluo aqui as nossas crenças religiosas. Sabemos disso. O que não sabemos é como superá-lo. Pois eu te digo, só podemos suplantá-lo com um Bem Maior. E esse Bem Maior é o reconhecimento do direito de cada um de ser o que é. Quando negamos isso a alguém, estamos exigindo que ele mate a si mesmo a cada instante. Isso mesmo. Pense bem nisso. ESTAMOS, LITERALMENTE, DANDO UMA ARMA A ESSA PESSOA E MANDANDO-A ATIRAR EM SI MESMA IMPIEDOSA E CONTINUAMENTE. E, qualquer pessoa que tiver que se sujeitar a isso estará, simplesmente, sendo vítima de tirania. Com certeza você nunca se viu dessa maneira, não é mesmo? - Tirano, eu?
Você já assistiu ao filme “A escolha de Sofia”? Onde é exigido que uma mãe judia escolha qual filho ela vai mandar para a câmara de gás? Essa dor excruciante, que todos podemos imaginar bem qual seja, é a mesma que impomos a qualquer um de quem se exige que seja outra pessoa só para nos agradar. Estamos obrigando essa pessoa a fazer uma escolha abominável.
Recentemente li uma frase fantástica: ACEITO QUE VOCÊ SEJA HETEROSSEXUAL, DESDE QUE SE COMPORTE COMO HOMOSSEXUAL TODO O TEMPO. Não é genial? Diz tudo. Se isso lhe soa estranho, o inverso também o é para qualquer amigo gay de quem se espera que se dissimule o comportamento.
A Cura Gay é possível. Mas ela também está sendo apreciada de uma perspectiva errada. Quem precisa de cura somos nós, que afrontamos a dignidade humana com nossos discursos equivocados. Da próxima vez que o menor lampejo de dúvida passar pela sua mente, ou qualquer estranheza, ou nobre tolerância se atrever a enaltecer sua auto-imagem, lembre-se de que, na verdade, você não passa de um tirano a estender uma arma vil.