15.8.13

CURA GAY



Hoje eu me deparei com uma dor excruciante. Uma dor imensa, que me dilacerou a alma e me revelou a face do monstro. Do tirano que somos todos nós, incapazes de aceitar cada um como é. Ainda estou atormentada, por isso escrevo esse texto.
Um amigo está sofrendo enorme dilema de ter que abrir mão do companheiro amado por causa do constrangimento que essa relação traz à sua família. Eu vi nos olhos dele uma dor incalculável, a dor de quem tem que escolher qual pessoa querida ele vai ferir, e isso inclui a si mesmo. Eu pude sentir o rasgo no seu peito e sua agonia me atingiu de tal forma que me jogou contra a parede, chacoalhou minha mente e me mostrou o que verdadeiramente importa, como nunca tinha visto antes.
Não interessa qualquer ponto de vista sobre a questão gay, mas o direito BÁSICO de cada um ser o que é. Compreendi, com horror, que não há uma questão gay a ser aceita, isso nem devia estar sendo cogitado. Cada um de nós que, “humanamente”, procura fazer um esforço de tolerância e aceitação, (porque, sejamos francos, a gente se esforça bastante) iremos, mais cedo ou mais tarde, descobrir que estamos analisando isso do ângulo errado. É claro que nosso preconceito é fruto de um contexto cultural, e incluo aqui as nossas crenças religiosas. Sabemos disso. O que não sabemos é como superá-lo. Pois eu te digo, só podemos suplantá-lo com um Bem Maior. E esse Bem Maior é o reconhecimento do direito de cada um de ser o que é. Quando negamos isso a alguém, estamos exigindo que ele mate a si mesmo a cada instante. Isso mesmo. Pense bem nisso. ESTAMOS, LITERALMENTE, DANDO UMA ARMA A ESSA PESSOA E MANDANDO-A ATIRAR EM SI MESMA IMPIEDOSA E CONTINUAMENTE. E, qualquer pessoa que tiver que se sujeitar a isso estará, simplesmente, sendo vítima de tirania. Com certeza você nunca se viu dessa maneira, não é mesmo? - Tirano, eu?
Você já assistiu ao filme “A escolha de Sofia”? Onde é exigido que uma mãe judia escolha qual filho ela vai mandar para a câmara de gás? Essa dor excruciante, que todos podemos imaginar bem qual seja, é a mesma que impomos a qualquer um de quem se exige que seja outra pessoa só para nos agradar. Estamos obrigando essa pessoa a fazer uma escolha abominável.
Recentemente li uma frase fantástica: ACEITO QUE VOCÊ SEJA HETEROSSEXUAL, DESDE QUE SE COMPORTE COMO HOMOSSEXUAL TODO O TEMPO. Não é genial? Diz tudo. Se isso lhe soa estranho, o inverso também o é para qualquer amigo gay de quem se espera que se dissimule o comportamento.
A Cura Gay é possível. Mas ela também está sendo apreciada de uma perspectiva errada. Quem precisa de cura somos nós, que afrontamos a dignidade humana com nossos discursos equivocados. Da próxima vez que o menor lampejo de dúvida passar pela sua mente, ou qualquer estranheza, ou nobre tolerância se atrever a enaltecer sua auto-imagem, lembre-se de que, na verdade, você não passa de um tirano a estender uma arma vil.

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