15.8.13

LINCOLN (o filme), O CONGRESSO BRASILEIRO, E A DEMOCRACIA



Ontem assisti Lincoln. O filme é bom, mas eu esperava mais. O filme narra a grande luta de Lincoln para a aprovação a Emenda Constitucional que extinguiria a escravidão, e só. O que também [tá certo] não é pouco, dada a magnitude e importância de tal Emenda. Mas, o que me chamou a atenção, me escandalizou de fato, foi a negociata no congresso para conseguir os votos. A oferta de cargos para parlamentares não reeleitos era a permuta autorizada. Fiquei tão chocada com isso! A MAIOR DEMOCRACIA DO MUNDO FOI CONSTRUÍDA COM BARGANHA!  Claro, porque não?  Como você pode esperar algo diferente? Ainda mais vivendo no Brasil, onde essa negociata é escandalosamente presente? O que torna meu desgosto ainda maior, porque estou falando do Brasil de 2013, enquanto analiso os Estados Unidos de 1865. Será que somos tão atrasados assim?
Embora não estivesse disposto a oferecer subornos em dinheiro, Lincoln autorizou que agentes contatassem os congressistas democratas com ofertas de empregos federais em troca de voto a favor da 13ª Emenda. Que um Estados Unidos da época precisasse dessa revoltante artimanha para aprovar uma ementa tão importante só serve para mostrar que foi quase um milagre o resultado da votação. Olhando com olhos de hoje nos parece insano que o mínimo do bom senso não permeasse a decisão a favor do homem livre.
Mais tarde, me queixei com o Richard da triste constatação de que POLÍTICA se faça dessa maneira. Que cada parlamentar sempre vota segundo seus próprios interesses, NUNCA a serviço da nação. Foi quando ele me disse uma frase memorável: “Claro que é assim, senão qualquer um serviria.”  Sim, exclamei, QUALQUER UM  serviria! Se a humanidade fosse capaz de votar pelo bem comum, com base na consciência ética, na justiça... qualquer um serviria. 
Há algo de muito obscuro nessa constatação. Parece que há um enorme lapso de tempo e espaço entre o mundo político e o resto do mundo – e não falo só do Brasil. A humanidade já conquistou muitas coisas. Já é natural para nós que a invasão de outro país seja inadmissível, que escravidão seja aviltante, que guerras por fins religiosos sejam insanas, que casamento inter-racial deva ser uma escolha de amor, que todos devam ter igualdade de direitos, etc. Então, nos parece intrínseco que o representante de uma nação deva votar pensando no BEM geral, acima de tudo. E a triste constatação é que isso está longe de ser verdade. Que o que chamamos democracia não passa de uma luta de interesses mesquinha e de compensação imediata. Ainda votamos as leis – e leis tão importantes como assegurar o bem estar de todos – pensando nos interesses adjacentes, muitas vezes pessoais e de curto prazo. Que nossos políticos sejam assim, é compreensível, não é mesmo? Não nos causa estranheza. O que me chamou a atenção é que nos escandalizamos quando descobrimos que eles não votam segundo a consciência, retidão, seriedade, dignidade, honradez, probidade... Todos sinônimos da nossa mais alta expectativa, que é justamente o que eles nos vendem em época de eleição, e o que, ingenuamente, permeia a decisão na hora do NOSSO voto.
Eles sabem o que se espera deles, e nós sabemos que eles não estão à altura dessa responsabilidade. Mas “eles” somos nós, não são? Humanos da nossa era? Gente como a gente? Essa dicotomia entre o perceptível nível da consciência humana atual (ideal?) e a realidade prática é enorme e estranha.


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