ENTRE PONTOS E TELAS
Uma mulher borda à luz de vela.
A espera não é vazia: cada ponto é memória, cada fio é um pensamento que se alonga.
Enquanto as mãos se ocupam, a mente visita lembranças, pesares, alegrias.
O silêncio, nesse tempo, tinha voz própria, dizia coisas, oferecia respostas.
Hoje, nós também esperamos.
Mas diante de telas, não de velas.
Absorvidos em imagens que passam sem deixar marcas, deixamos o tempo correr como se não fosse nosso.
Não há o mesmo silêncio, não há o intervalo que deixa o pensamento existir.
Outrora, caminhar até a escola ou o trabalho era ocasião para dialogar consigo mesmo.
O trabalho manual repetitivo "costurar, plantar, carpir" permitia uma meditação escondida.
Esperar na janela, no banco da praça, no ponto de ônibus, era uma pausa onde cabia devaneio.
Até a leitura lenta, feita em voz baixa ou apenas com os olhos, abria espaços de reflexão.
Hoje, em vez de conviver com o silêncio, fugimos dele.
Mas talvez seja nele, nesse lugar fértil de antigamente, que ainda se esconde o que mais precisamos: a chance de escutar o tempo, em vez de apenas deixá-lo passar.
...
É curioso pensar que, há poucas gerações, o tempo não era apenas algo a ser consumido, mas um território para o pensamento. Esperar não era perda: era oportunidade de escuta, de introspecção, de criação.
Hoje, enquanto navegamos em feeds, absorvemos imagens, respondemos mensagens instantâneas, esquecemos que o silêncio também ensina. Ele nos lembra dos gestos simples: bordar à luz de vela, caminhar sem destino, ouvir o vento, esperar notícias, escrever um diário.
Cada gesto carregava um ritmo próprio, permitia que o tempo se tornasse tecido e memória, em vez de ruído e urgência. A prática da atenção, da paciência, da contemplação, nos oferecia respostas que muitas vezes, hoje, não encontramos nos nossos cliques incessantes.

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